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Opinadela: Ateus-Carrapato e Maioria Cristã

post de hoje tem como ponto de partida o texto de opinião "Os ateus-carrapato" de Maria João Marques no Observador.

Em jeito de declaração de interesses, deixem-me, desde já, esclarecer que fui educado como cristão católico, contribui para a educação de outros nessa mesma fé e fui muito ativo na minha paróquia - não só como participante, mas também como voluntário e/ou como responsável por determinadas áreas paroquiais. 

Claro que estar tão inteirado dos assuntos paroquiais e conviver com os seus responsáveis me fez perder toda a confiança na igreja dos Homens, mas mantenho a minha fé - há quem lhe chame Fé Pessoal - na mensagem cristã. Considero-me um cristão à margem da igreja humana.

Voltando ao texto de Maria João Marques.

Por um lado concordo com a autora quando expõe a existência de ateus que parecem perseguir todos aqueles que resolvem colocar a sua Fé numa Religião - designados ali de "ateus-carrapato". A Fé (ou a profissão de uma fé) é um direito individual e, por muito que um determinada crença nos pareça irracional, ignorante, anormal ou doentia, é um direito que não deve ser negado a ninguém. Todos somos livres de acreditarmos no que quisermos e ninguém deveria ser julgado pela sua crença. 

Contudo, há um argumento (utilizado pela autora) que considero inapropriado e falacioso para qualquer assunto que envolva a Política ou a Sociedade Civil: «a maioria dos portugueses é católica».

Ainda que seja verdade (e acredito que seja), este argumento de maioria católica não deveria ser válido.

Temos já vários exemplos:

A maioria dos portugueses é católica, logo não deveria existir legislação que permita a Interrupção Voluntária da Gravidez. (Deixem-me voltar aos primeiros parágrafos que escrevi. Durante a campanha para o Referendo à Despenalização do Aborto em 2007, uma das minhas quezílias com o pároco, foi sobre a intimidação dos cristãos a votarem "Não" porque será pecado não só a prática do aborto, como também a inação dos cristãos ao deixarem que tal seja despenalizado. Qualquer outro argumento não era válido - e apesar de ser a favor desta despenalização, reconheço que há argumentos válidos contra a mesma.).

A maioria dos portugueses é católica e heterossexual, logo um contrato civil intitulado de casamento (atenção que nunca se tratou do Sacramento Cristão que se designa de Matrimónio) entre pessoas do mesmo sexo não deveria ser permitido. Só porque ameaça seriamente o desígnio cristão para o que a Sociedade deve considerar como Família - entram aqui outras situações como o divórcio.

A maioria dos portugueses é católica, logo não deveria existir legislação que despenalize a Eutanásia, porque o único que pode determinar a nossa Vida ou Morte é Deus. Aposto que se existisse um Referendo, as homilias seria repletas de ameaças com o fogo do Inferno a quem adotar tal prática e até mesmo se os cristãos permitirem que se legisle sobre a Eutanásia. Além disso, atribui-se a "propriedade" da Vida a Deus, o que para alguém que não acredite Nele se torna um argumento ridículo.

Poderia continuar, mas creio que já entenderam.

O nosso Estado é Laico (conquista conseguida após a Implantação da República a 5 de outubro de 1910), como tal deve abranger todos os cidadãos independentemente do seu Credo. Logo, a maioria cristã não deverá ser argumento para impedir que se consagrem direitos individuais das minorias que não professam da mesma fé.

A maioria dos portugueses até pode ser cristã, mas relembro que apesar da Moral da sociedade portuguesa, por motivos históricos, ter como pilar a moral da religião Cristã, não significa que se limite por esta. Até porque a moral religiosa tende a ser imutável, independentemente das mudanças que ocorram na própria Humanidade, e a Moral da Sociedade pode e deve acompanhar a evolução social. 

E no caso das referidas (no texto de Maria João Marques) aulas de Religião e Moral (ou Ratos Mortos, como "carinhosamente" apelidávamos a disciplina), recordo que na minha altura (ali pelos anos 90) a única religião era a Católica Cristã e a única Moral era a defendida por essa Religião - até porque a maioria dos professores estava ligada à Igreja. Ora num Estado Laico, a educação religiosa cabe às instituições religiosas e não às instituições estatais. 

No fundo, afinal parece que só concordo com a existência dos "ateus-carrapato", que são tão indesejáveis e criticáveis quanto os religiosos fanáticos.

 

 

Curtas: Fact Checks

Hoje abro site do Observador e descubro que o Fact Check tem novo formato.

Eu sou fã de Fact Checks, pois se, muitas vezes, os jornalistas não confrontam - por falta d eoportunidade ou até mesmo capacidade - determinadas declarações com factos e dados na hora, pelo menos alguém que se dê ao trabalho de fazer um Fact Check.

Face à atitude dos nossos políticos nos últimos anos, e a uma Política recheada de "inverdades", "pós verdades", demagogias e etc, acredito que os Fact Checks contribuem para o esclarecimento e informação do "cidadão comum", ou seja para uma maior transparência democrática.

 

 

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